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A História de Juara: Da Gleba Taquaral à Capital do Norte Mato-Grossense

  • Foto do escritor: Oeste MT Urgente
    Oeste MT Urgente
  • 28 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura
Juara Mato Grosso
Juara Mato Grosso

A história de Juara, município localizado no norte do estado de Mato Grosso, é marcada por coragem, desafios e um intenso processo de colonização que transformou a região amazônica ao longo do século XX. O surgimento de Juara está diretamente ligado ao contexto histórico nacional, às políticas de ocupação da Amazônia e à determinação de famílias pioneiras em buscar novas oportunidades de vida.


A Marcha para o Oeste e os Primeiros Desbravadores


A partir do governo de Getúlio Vargas (1930-1945), a colonização da Amazônia passou a ser incentivada como estratégia de desenvolvimento e defesa do território nacional. Movimentos como o segundo ciclo da borracha e a preocupação com a integridade das fronteiras deram origem à chamada Marcha para o Oeste, incentivando brasileiros de diferentes regiões a ocuparem áreas ainda pouco exploradas.


Décadas depois, em 1966, o presidente Castelo Branco reforçou esse discurso com a famosa frase sobre a necessidade de “integrar para não entregar”, enfatizando a importância da ocupação da Amazônia para a unificação nacional. Nesse cenário, surgiram empresas colonizadoras, como a SIBAL (Sociedade Imobiliária da Bacia Amazônica Ltda.), que compravam grandes áreas de terra para transformá-las em novos núcleos urbanos e agrícolas.


A chegada dos primeiros colonizadores não foi fácil. Eles enfrentaram dificuldades climáticas, isolamento e adaptação à mata virgem, mas foram movidos pela esperança de uma vida melhor. Como recorda José Antonio de Oliveira:

“Quando aqui chegamos, a gleba era um mundo verde, dormindo na solidão da Amazônia. Transformamos o seu rosto, abrindo clareiras e picadas na mata virgem e enfeitamos de roças as novas terras...”

Os pioneiros buscavam terra produtiva para sustentar suas famílias, atraídos por propagandas que prometiam oportunidades e solos férteis, pouco explorados até então.


Povos Indígenas e Conflitos Territoriais


Antes da chegada dos colonizadores, a região de Juara era habitada pelos Kayabis e disputada por outras etnias indígenas, devido à abundância de recursos naturais, como taquara e pedra sílex, essenciais para a confecção de ferramentas e armas. Relatos indicam que os Kayabis mantinham relações pacíficas com os colonizadores, enquanto outros grupos, como os Canoeiros, se envolveram em conflitos com fazendeiros das proximidades. Alguns indígenas, inclusive, colaboraram com o trabalho agrícola, auxiliando na derrubada da mata e na adaptação das novas terras.


A Fundação da Gleba Taquaral


O processo de colonização de Juara começou oficialmente em 1971, quando a SIBAL adquiriu uma área de mais de 35.000 hectares, próximo à cidade de Porto dos Gaúchos. O objetivo era dividir a terra em lotes e vendê-los para agricultores interessados em se estabelecer na região. José Pedro Dias, conhecido como Zé Paraná, ficou responsável por abrir estradas, demarcar os lotes e preparar a infraestrutura inicial, incluindo barracões e áreas de cultivo.


Em 1973, 40 famílias pioneiras chegaram à então Gleba Taquaral, trazendo com elas experiências agrícolas de diferentes regiões do Brasil, principalmente do Sul e do Nordeste. O cultivo inicial incluía arroz, milho, feijão e café. A colonizadora SIBAL comprava a produção local para facilitar o escoamento, já que as vias de transporte eram precárias e dependiam tanto de rios quanto de antigas estradas de terra.


A região também recebeu a primeira serraria, Timber da Amazônia, de onde saíram os materiais para a construção das primeiras casas. No mesmo ano, foi erguida a primeira capela, dedicada a São José, e realizado o primeiro comércio local, dando início à estrutura comunitária de Juara.


Crescimento e Estruturação da Cidade


O sucesso da Gleba Taquaral atraiu cada vez mais agricultores, e o crescimento populacional foi rápido. A partir de 1974, começaram a ser vendidos lotes em áreas próximas, como rio dos Peixes, Mundo Novo, Águas Claras e Jaú, consolidando o núcleo urbano que mais tarde se transformaria em Juara.


A primeira escola foi instalada em 1976 nos barracões de armazenamento da produção agrícola, e o distrito de Juara foi oficialmente criado em 4 de julho de 1976, subordinado ao município de Porto dos Gaúchos.


No início, a assistência médica era precária, obrigando os pioneiros a buscar ajuda em cidades vizinhas. Em 1976, chegou o primeiro médico, Dr. Isaías Pinheiro Antunes, que construiu o primeiro hospital e maternidade, proporcionando um avanço significativo à região, apesar das dificuldades de logística e infraestrutura.


Emancipação Política e Desenvolvimento Econômico


Em 1981, um plebiscito confirmou a vontade da população pela emancipação de Juara, que ocorreu oficialmente em 23 de setembro de 1981, desmembrando-se de Porto dos Gaúchos. O primeiro prefeito nomeado foi José Pedro Dias (Zé Paraná), seguido pela primeira eleição direta em 1982, elegendo José Geraldo Riva.


A partir de então, Juara experimentou crescimento econômico e social significativo. Inicialmente reconhecida pela produção de café, a cidade gradualmente se consolidou como a “Capital do Gado”, tornando-se referência na pecuária de Mato Grosso. Em 4 de julho de 1985, Juara foi elevada à categoria de comarca, fortalecendo ainda mais sua importância regional.


Juara Hoje


Com uma área de 22.632,713 km², Juara é hoje um dos maiores municípios do estado de Mato Grosso, abrigando os distritos de Águas Claras, Catuaí e Paranorte. Sua história é marcada pela coragem dos primeiros desbravadores, pelo trabalho árduo das famílias pioneiras e pela transformação de uma gleba de mata virgem em um município próspero, integrando desenvolvimento econômico e social à preservação da memória histórica da região.


O topônimo Juara, embora ainda objeto de debate, é mais comumente associado à língua tupi, significando “Moça Bonita”, refletindo a tradição e a beleza natural da região que continua a encantar moradores e visitantes até hoje.


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