Conheça a história das Ruínas do Apa, quando Mato Grosso ainda era unificado e guardava a fronteira do Brasil
- Gutemberg Araújo

- há 2 dias
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Na confluência do Rio Apa com o Rio Paraguai, onde hoje é território de Porto Murtinho (MS), o tempo deixou de pé — ainda que parcialmente — um dos vestígios mais simbólicos da consolidação territorial brasileira: as ruínas do Posto Fiscal da Foz do Apa, instalado em 1911, quando Mato Grosso ainda era um só.
À primeira vista, são apenas paredes antigas de tijolo. Mas quem olha com atenção percebe que ali está muito mais do que uma construção abandonada. Está a materialização de uma política de Estado. Está a história da fronteira. Está o Brasil tentando se afirmar depois de uma das guerras mais devastadoras da América do Sul.
Tudo começa décadas antes de 1911.
Após a Guerra do Paraguai, encerrada em 1870, o mapa da região precisou ser oficialmente redesenhado. O Tratado de Paz e Limites firmado em 9 de janeiro de 1872 consolidou o Rio Apa como fronteira natural entre Brasil e Paraguai. No papel, a linha estava definida. Mas na prática, era preciso ocupar, fiscalizar e garantir presença constante.
O governo imperial — e depois a República, proclamada em 1889 — sabiam que fronteira sem presença física é convite para disputa. O sul do então Mato Grosso era distante dos centros administrativos, de difícil acesso e dependente quase exclusivamente dos rios.
E ali entra o Rio Paraguai.
No final do século XIX e início do século XX, ele era a grande estrada do Centro-Oeste. Antes das rodovias, antes das pontes modernas, antes dos caminhões, era pelas águas que circulava praticamente toda a economia regional. Embarcações subiam e desciam levando erva-mate, couro, charque, gado e trazendo produtos industrializados da Argentina, do Paraguai e até da Europa.
Porto Murtinho, oficialmente criado em 13 de junho de 1911 pela Lei Estadual nº 553 do antigo Mato Grosso, consolidava-se como entreposto estratégico. A navegação era intensa. E onde há circulação de mercadorias, há necessidade de controle tributário.
Foi nesse cenário que, em 1911, o governo federal instalou o Posto Fiscal da Foz do Apa.
A estrutura estava vinculada à organização fazendária da Primeira República, subordinada ao Ministério da Fazenda, responsável pelas alfândegas e delegacias fiscais. O objetivo era claro: fiscalizar embarcações, registrar cargas, cobrar impostos de importação e exportação e combater o contrabando que naturalmente floresce em regiões fronteiriças.
Não era apenas um prédio. Era um ponto de soberania.
Construído com tijolos maciços, argamassa de cal e fundação em pedra, o posto seguia o padrão funcional das edificações administrativas do início do século XX. Paredes grossas, planta simples, nenhuma ornamentação. A prioridade era resistência e praticidade.
Ali dentro provavelmente funcionavam uma sala administrativa, arquivo físico de registros, depósito de mercadorias retidas e alojamento para os fiscais. Tudo operado por um pequeno quadro funcional que podia incluir inspetor fiscal, escrivão e auxiliares. Em alguns momentos, havia apoio militar, especialmente em períodos de maior tensão ou intensificação do contrabando.
A rotina não era simples.
O isolamento era real. Comunicação dependia de embarcações. Correspondências levavam dias ou semanas para chegar. As cheias do Rio Paraguai alteravam o cenário regularmente. O calor era intenso. A solidão fazia parte do trabalho.
Mas a missão era estratégica.
O Rio Apa não era apenas um curso d’água. Era limite internacional. E qualquer embarcação que transitasse pela região precisava ser observada. A fiscalização buscava impedir a circulação irregular de bebidas, tecidos, armas, munições e outros produtos que cruzavam a fronteira sem recolhimento de tributos.
Durante as primeiras décadas do século XX, a Bacia do Prata era economicamente vibrante. O Brasil precisava afirmar sua autoridade naquela faixa territorial recém consolidada diplomaticamente. O posto da Foz do Apa fazia parte de uma rede maior de controle fluvial implementada pela administração republicana.
Com o passar do tempo, o cenário começou a mudar.
A partir das décadas de 1930 e 1940, a expansão gradual da malha rodoviária alterou a dinâmica do transporte regional. O eixo fluvial perdeu protagonismo. A estrutura administrativa federal também passou por reorganizações ao longo do século XX, centralizando serviços e modernizando a fiscalização.
Postos menores, como o da Foz do Apa, foram perdendo relevância operacional.
Sem manutenção contínua, a construção sofreu com as intempéries, com as cheias periódicas e com o avanço da vegetação. Gradualmente, deixou de funcionar. Não há registro amplamente divulgado da data exata de desativação, mas a perda de importância ocorreu ao longo de meados do século XX.
Em 11 de outubro de 1977, quando a Lei Complementar nº 31 criou o Estado de Mato Grosso do Sul, a região já fazia parte de outra configuração política. Mato Grosso havia sido dividido. Mas as ruínas permaneceram como testemunho do período em que todo aquele território integrava o antigo Mato Grosso uno.
Hoje, o que resta são paredes parcialmente erguidas, fundações expostas e tijolos centenários marcados pelo tempo. Não há grande estrutura turística, nem placas explicativas detalhadas. O local é mais conhecido por pesquisadores, historiadores regionais e moradores de Porto Murtinho.
Mas sua importância é inegável.
Ali está um fragmento físico da política de consolidação territorial pós-1872. Ali está a memória da fiscalização aduaneira da Primeira República. Ali está a evidência de como o Brasil estruturava sua presença em áreas estratégicas muito antes de existir tecnologia moderna de monitoramento.
As Ruínas do Posto Fiscal da Foz do Apa não são apenas vestígios arquitetônicos. São um símbolo da soberania brasileira sendo construída tijolo por tijolo, à margem de um rio que já foi a principal artéria econômica do Centro-Oeste.
Quando Mato Grosso ainda era um só, aquela construção representava autoridade, arrecadação e presença nacional.
Hoje, representa memória.
E talvez esteja na hora de olharmos para ela com a importância histórica que realmente merece.
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