José Manuel Fontanillas Fragelli — um político do Pantanal
- Oeste MT Urgente
- 3 de dez. de 2025
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José Manuel Fontanillas Fragelli foi uma das figuras políticas mais duradouras e conhecidas do Centro-Oeste brasileiro. Advogado, promotor, professor, produtor rural e homem público, Fragelli atravessou quase todo o século XX ocupando cargos nas esferas estadual e federal — da promotoria em Campo Grande à presidência do Senado Federal — e deixou marca especialmente nas transformações administrativas e infraestruturais de Mato Grosso e, depois, de Mato Grosso do Sul. Sua trajetória mistura ação institucional, posturas pragmáticas num período de regimes autoritários e de redemocratização, e um respeito pessoal que a memória regional costuma ressaltar.
Resumo da trajetória
Nascido em Corumbá e neto de espanhóis e italianos, formou-se em Direito na Faculdade do Largo de São Francisco (Universidade de São Paulo) em 1938. Iniciou a carreira pública como promotor de justiça em Campo Grande (1939–1943) e a partir de 1947 foi presença constante nos parlamentos estaduais e federal: constituinte estadual, deputado estadual, deputado federal, secretário de Estado, governador de Mato Grosso na década de 1970 e, já na fase em que existia o estado de Mato Grosso do Sul, senador (1980–1987). Presidiu o Senado Federal entre 1985 e 1987 e, em setembro de 1986, exerceu interinamente a Presidência da República por breves períodos. Faleceu em 30 de abril de 2010, em Aquidauana, aos 94 anos.
Origens, família e formação
Fragelli nasceu em uma família de tradição profissional e engajamento público. Seu pai, Nicolau Fragelli, formou-se em medicina e também atuou como jornalista e político em Corumbá, sendo membro da Academia Mato-Grossense de Letras — influência cultural e cívica que marcou o ambiente familiar. José Fragelli estudou direito em São Paulo, onde obteve o bacharelado em 1938, ano que lhe trouxe a qualificação acadêmica necessária para uma carreira jurídica e política.
Casado com Maria de Lourdes Ribeiro Fragelli, Fragelli também foi professor e historiador amador, com gosto por leitura e participação em sociedades literárias — traços que o acompanharam ao longo da vida pública.
Início da carreira pública: promotor e deputado constituinte
Logo após a graduação, ingressou na Promotoria: entre 1939 e 1943 atuou como promotor de justiça em Campo Grande, onde firmou relações institucionais e começou a ser reconhecido como “homem do Direito” — justo, sereno e habilidoso em “palmilhar o terreno da simplicidade”, segundo depoimentos de contemporâneos. Em 1947 tornou-se deputado constituinte de Mato Grosso pela União Democrática Nacional (UDN), partindo daí para mandatos como deputado estadual (reeleito em 1950) e depois deputado federal (1955–1959).
Anos 1950–1960: cargos estaduais e retorno ao setor privado
No início da década de 1950, Fragelli exerceu funções executivas no governo do Estado — entre 1953 e 1954 ocupou a Secretaria de Justiça e Finanças (ou Secretaria do Interior, Justiça e Finanças, conforme relato), acumulando experiência administrativa. Após o mandato de deputado federal, passou uma fase dedicado à advocacia em Campo Grande, afastando-se temporariamente da vida política ativa.
A opção por Arena e o governo de Mato Grosso (década de 1970)
Com o golpe de 1964 e o novo mapa partidário do regime militar, Fragelli alinhou-se politicamente à Arena (aliança de sustentação ao regime) e voltou ao protagonismo institucional. Presidiu o diretório municipal em Aquidauana e, indicado pelo governo federal, assumiu o governo de Mato Grosso no começo da década de 1970 — período em que coordenou grandes projetos de colonização, infraestruturas e integração regional.
Durante seu governo estadual, Fragelli impulsionou programas de colonização do Noroeste do estado e projetos em parceria com a União, como o PROTERRA e o PRODOESTE; promoveu obras de energia (o chamado “linhão” trazido da Serra Dourada, em Goiás) e idealizou o Centro Político Administrativo de Cuiabá. Uma das obras mais visíveis associadas ao seu governo foi a construção do estádio conhecido como Verdão, em Cuiabá — obra que, iniciada em sua gestão, gerou discussões e críticas relativas a custos e localização, mas acabou se tornando marco do futebol cuiabano e, por muitos anos, carregou seu nome.
(Observação: nas fontes consultadas há pequenas variações nas datas do seu governo — relatos mencionam 1970–1974 e outros 1971–1975 — o que é comum em pesquisas históricas locais; o importante é que sua administração ocorreu no início dos anos 1970.)
Redivisão do mapa regional e mudança para Mato Grosso do Sul
Com a criação do Estado de Mato Grosso do Sul (1977), Fragelli fixou-se mais diretamente na nova unidade federativa, residindo em Aquidauana. O processo de divisão territorial reacendeu debates administrativos e políticos regionais aos quais Fragelli participou, agora como liderança com larga experiência nos dois lados da antiga unidade estadual.
Senado Federal, presidência do Senado e papel na redemocratização
Em novembro de 1980 Fragelli assumiu a cadeira de senador como suplente de Pedro Pedrossian, que deixou o Senado para governar Mato Grosso do Sul. No Senado, integrou comissões importantes — entre elas Constituição e Justiça (onde chegou a ser vice-presidente), Economia e Finanças — e consolidou sua imagem de parlamentar sereno, que prezava pela formalidade e pelo funcionamento regular das instituições.
Entre 1985 e 1987 presidiu o Senado Federal e, por força dessa posição, também presidiu o Congresso Nacional. Em setembro de 1985 e no período subsequente da transição institucional do país, destacou-se na articulação política que envolveu Tancredo Neves e sua candidatura presidencial de 1985; Fragelli foi um dos senadores que buscou atrair Tancredo para a disputa e, quando a crise de saúde de Tancredo impediu a posse, Fragelli foi figura central no episódio que garantiu a posse de José Sarney como presidente da República. Em setembro de 1986, como presidente do Senado, chegou a assumir interinamente a presidência da República por curtos períodos — ocasiões registradas nos dias 9 a 14 e 28 a 30 de setembro de 1986 — num momento convulso de transição e de definições constitucionais.
Fragelli tornou-se conhecido, no gabinete e em parlamentos, por medidas práticas como não iniciar sessões sem a presença mínima regulamentar de parlamentares — posturas que buscavam assegurar quorum e legitimidade procedimental numa Casa frequentemente marcada por ausência de membros em votações sensíveis.
Posições políticas e nuances
A trajetória de Fragelli é atípica pela longevidade e pelas adaptações a contextos diversos: começou na UDN, apoiou setores da oposição antivarguista nos anos 1950 e, com o regime militar, aliou-se à Arena. Essa flexibilidade era, em parte, reflexo de uma prática política regional voltada à governabilidade e à captação de investimentos e obras — uma marca comum entre lideranças estaduais que transitavam entre demandas locais e as exigências do governo federal.
Sua participação no apoio à candidatura de Tancredo e sua atuação no período de transição ao governo civil mostram um pragmatismo institucional: Fragelli, homem do Direito, optou por soluções políticas para preservar a rotina do Estado e a sucessão presidencial em um momento de fragilidade institucional.
Produção intelectual e publicações
Fragelli publicou diversos trabalhos e documentos voltados à história e à administração estadual — desde balanços de governo até palestras sobre o Legislativo. Entre os títulos associados ao seu nome estão:
Mato Grosso. Governadores, 1970–1974
Mensagem à Assembléia Legislativa
Mato Grosso. Governo do Estado
Mato Grosso do Garimpo ao Computador, Balanço do Governo José Fragelli
Mato Grosso. Secretaria de Governo e Coordenação Econômica. Um Plano de Governo e sua Execução
A Conjuntura Nacional e o Poder Legislativo (palestra proferida em 5-6-86 na Escola Superior de Guerra)
O Poder Legislativo
Essas obras refletem seu interesse por gestão pública, por diagnósticos regionais e pela relação entre poder executivo e legislativo — recortes úteis para estudar a administração estadual nos anos 1970.
Homenagens e polêmicas
Fragelli recebeu homenagens durante e após sua carreira. O mais simbólico foi a associação do seu nome ao Estádio Governador José Fragelli — o Verdão — em Cuiabá. A obra foi alvo de críticas de administração e custo durante sua execução, mas o estádio consolidou-se como referência esportiva da capital cuiabana; décadas depois, com a modernização dos estádios e a construção da Arena Pantanal, discute-se a preservação da memória e dos nomes associados às estruturas esportivas.
Como todo gestor público de projeção, Fragelli enfrentou críticas e controvérsias: decisões de localização de obras, orçamentos e parcerias com a União foram sucessivamente debatidas na imprensa e no meio político. Contudo, a avaliação pública costuma equilibrar críticas pontuais com o reconhecimento de sua atuação em processos estruturantes para a região, como energia, colonização e criação de equipamentos governamentais.
Perfil pessoal e legado
Colegas e biógrafos descrevem Fragelli como “nobre e suave”, alguém que cultivava educação, leitura e um trato discreto. Testemunhos lembram sua habilidade em dialogar com autoridades e em transitar entre o mundo jurídico, o político e o rural — pois, após a vida pública, dedicou-se à atividade rural e à gestão de propriedades.
Seus vínculos com a terra pantaneira marcaram sua retórica: repetia admiração pela natureza do Pantanal e atribuía valor estético e humano à convivência com a paisagem. Fragmentos de suas falas — como a constatação de que teve de “decidir urgentemente sem procrastinar, diante da combalida República” — sintetizam a tensão entre formalismo jurídico e decisões políticas de emergência que caracterizaram parte de sua passagem pela cena nacional.
Falecimento
José Fragelli faleceu na madrugada de 30 de abril de 2010, em Aquidauana, Mato Grosso do Sul, aos 94 anos, com a saúde fragilizada. Sua morte motivou notas de pesar em esferas municipais, estaduais e federais e reabriu memórias sobre seu papel em momentos cruciais da política sul-mato-grossense e brasileira.
Conclusão — uma figura de pontes
Fragelli foi político de raras travessias: percorreu o aparato jurídico, os parlamentos estadual e federal, o governo estadual em tempos de regime autoritário, e a presidência do Senado num dos períodos fundamentais da redemocratização brasileira. Seu legado é ambíguo como o de muitos que atuaram em meados do século XX: feito de ações concretas de infraestrutura e gestão, marcado por alinhamentos partidários que acompanharam os ventos do período e por uma reputação pessoal de cortesia, erudição e prudência. Para a história do Centro-Oeste, Fragelli é referência — não apenas pelas obras físicas que ajudou a provocar, mas pela forma como personificou a travessia entre o velho Mato Grosso e as novas configurações regionais que surgiram nas últimas décadas do século XX.
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