Kiwi: a fruta que precisou mudar de nome para conquistar o Ocidente
- Gutemberg Araújo

- há 2 dias
- 3 min de leitura

Tem fruta que nasce, cresce e vai direto pra fruteira sem grandes dramas. E tem fruta que precisa passar por rebranding internacional por causa de tensão geopolítica.
O kiwi é desse segundo tipo.
Se você achava que ele sempre se chamou kiwi… sinto informar: não. E o nome antigo era um problemão em plena Guerra Fria.
Antes de ser kiwi, era “fruta do macaco”
O kiwi é nativo da China. Lá no século 16 ele já aparecia em registros com o nome “mihoutao”, que significa literalmente “fruta do macaco”. Simples, direto e honesto.
Em 1904, uma diretora de escola da Nova Zelândia chamada Mary Isabel Fraser visitou a China e trouxe algumas sementes na bagagem. Essas sementes foram parar nas mãos de um fazendeiro chamado Alexander Allison, perto da cidade de Whanganui.
As primeiras frutas surgiram em 1910. E aí começou a transformação.
De “fruta do macaco” para “groselha chinesa”
Os neozelandeses experimentaram e acharam o sabor parecido com groselha. Resultado? Batizaram de “groselha chinesa”.
Só que tem um detalhe curioso: o kiwi não tem absolutamente nada a ver com a família das groselhas (Grossulariaceae). Foi só um chute culinário mesmo.
Enquanto isso, EUA e Reino Unido até tentaram plantar a fruta, mas não tiveram muito sucesso. Já na Nova Zelândia… virou moda. A fruta caiu no gosto popular e começou a ganhar espaço comercial.
E aí veio a bomba geopolítica.
Guerra Fria e problema de marketing
Na década de 1950, a Nova Zelândia começou a exportar a tal “groselha chinesa” para os Estados Unidos.
Só que… era Guerra Fria.
A China era aliada da União Soviética. E importar algo chamado “groselha chinesa” podia soar, digamos, antipático para o mercado americano da época.
Marketing é tudo. E ninguém queria dor de cabeça diplomática por causa de fruta.
Foi então que a empresa exportadora Turners and Growers decidiu: precisava mudar esse nome urgente.
“Melonette”? Ainda bem que não.
O primeiro nome cogitado foi “melonette”.
Parece nome de chiclete dos anos 80, né?
Mas havia um problema prático: melões e bagas tinham tarifas de importação mais altas. Ou seja, além de feio, poderia sair mais caro.
Descartado.
A reunião que mudou tudo
Em junho de 1959, durante uma reunião em Auckland, um dos sócios da empresa, Jack Turner, sugeriu algo simples:
“E se chamássemos de kiwi?”
Brilhante.
Kiwi é o pássaro símbolo da Nova Zelândia — uma ave pequenininha, marrom, redonda e que não voa. Se você olhar bem… lembra bastante a fruta.
Além disso:
Os próprios neozelandeses já eram apelidados de kiwis.
O nome era curto.
Fácil de pronunciar.
Não tinha “China” no meio.
E ainda tinha identidade nacional.
Foi adotado. E pegou.
A explosão mundial
Nos anos 1970, o comércio internacional do kiwi explodiu.
Hoje, a Nova Zelândia não é a única exportadora.China, Itália e Estados Unidos também produzem em larga escala.
E olha que ironia:A China é hoje a maior produtora mundial — e também adotou o nome “kiwi” no mercado internacional. “Mihoutao” ainda existe por lá, mas “kiwi” virou padrão global.
Ou seja, a fruta saiu da China, mudou de nome para agradar o Ocidente… e voltou ao mundo inteiro com identidade neozelandesa.
Moral da história
O kiwi é um ótimo exemplo de como:
Política influencia comércio
Comércio influencia linguagem
E linguagem influencia cultura
Às vezes, para conquistar o mundo, não basta ser deliciosa.Tem que ter um bom nome também.
E convenhamos:“Salada de groselha chinesa” não teria o mesmo charme que “salada com kiwi”, né?
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