top of page

O cachorro que era cultuado como santo — até a Igreja Católica resolver proibir. Veja :

  • Foto do escritor: Gutemberg Araújo
    Gutemberg Araújo
  • 17 de jan.
  • 3 min de leitura
história do cachorro santo proibido pela Igreja Católica na Idade Média
História do cachorro santo proibido pela Igreja Católica na Idade Média

Pode parecer exagero da internet ou lenda urbana moderna, mas a história é real, documentada e atravessou séculos: um cachorro foi venerado como santo por fiéis na Europa medieval, recebeu velas, promessas, pedidos de cura e até peregrinações — tudo isso até a Igreja Católica intervir oficialmente e proibir o culto.


O episódio revela muito mais do que uma devoção curiosa. Ele escancara o conflito histórico entre fé popular e religião institucional, um embate que se repete ao longo dos séculos.


O caso do “Santo Guinefort”, o cachorro venerado na França medieval


O episódio mais conhecido aconteceu na região de Dombes, próximo a Lyon, na França, entre os séculos XIII e XIV. O animal ficou conhecido como São Guinefort (Saint Guinefort) — embora jamais tenha sido reconhecido oficialmente pela Igreja.


Segundo relatos registrados por inquisidores da época, Guinefort era um galgo que pertencia a um senhor feudal. A lenda conta que, certo dia, o dono encontrou o berço do filho revirado, manchas de sangue pelo chão e o cachorro com a boca ensanguentada. Convencido de que o animal havia atacado a criança, o homem matou o cão imediatamente.


Pouco depois, encontrou o bebê ileso, dormindo tranquilamente, e ao lado dele uma cobra morta. O cachorro, na verdade, havia protegido a criança de uma serpente venenosa.

Tomado pela culpa, o senhor enterrou o animal com honras. O que veio depois fugiu completamente do controle.


O nascimento de um culto popular


Com o tempo, moradores da região passaram a visitar o túmulo do cachorro, atribuindo a ele poderes de proteção, especialmente relacionados a crianças doentes, fertilidade e doenças misteriosas — algo comum em uma época marcada por alta mortalidade infantil, fome e epidemias.


Mulheres levavam seus filhos até o local, acendiam velas, deixavam oferendas, pedaços de roupa, fitas e ex-votos — exatamente como se fazia com santos reconhecidos. O local virou ponto de peregrinação informal.


Para o povo, Guinefort já era santo. E ponto final.


A Igreja descobre — e se assusta


A situação chamou a atenção da Igreja Católica por volta de 1250, quando o dominicano Étienne de Bourbon, inquisidor e teólogo francês, tomou conhecimento do culto durante missões pastorais.


Chocado, ele registrou o caso em seus escritos, descrevendo o ritual como superstição perigosa. Para a teologia católica, o problema era grave:👉 apenas seres humanos podem ser canonizados, pois a santidade está ligada à razão, à fé consciente e à escolha moral — algo impossível para um animal.


Além disso, permitir o culto a um cachorro poderia abrir precedente para idolatria e enfraquecer a autoridade religiosa.


A proibição oficial do culto


A Igreja então proibiu formalmente a veneração, ordenou a destruição de símbolos ligados ao cachorro e tentou extinguir o culto. Relatos indicam que o bosque onde o túmulo ficava foi queimado e que padres alertavam os fiéis sobre o “perigo espiritual” daquela prática.

Mas a decisão oficial não apagou a devoção.


Mesmo após a proibição, o culto a São Guinefort continuou de forma clandestina por séculos, especialmente entre camponeses. Algumas práticas só desapareceram completamente no início da era moderna.


Fé, superstição ou desespero coletivo?


Para historiadores e antropólogos, o culto ao cachorro santo não deve ser visto apenas como ignorância religiosa. Ele reflete o desespero de uma população vulnerável, que buscava proteção onde a medicina falhava e onde a Igreja nem sempre chegava.


Em um mundo sem antibióticos, sem hospitais e com epidemias constantes, a fé popular criava seus próprios símbolos de esperança.


O cachorro não era venerado por ser animal, mas por representar lealdade, proteção e sacrifício — valores profundamente humanos.


Um caso único? Nem tanto


Embora São Guinefort seja o exemplo mais famoso, registros históricos indicam outros episódios semelhantes, envolvendo animais associados a milagres, proteção de vilarejos ou sinais divinos — sempre combatidos pela Igreja.


O caso virou objeto de estudo em universidades europeias, sendo citado em pesquisas sobre religiosidade medieval, folclore cristão e controle institucional da fé.


Uma história que ainda provoca debate


Hoje, o episódio levanta questões que continuam atuais:

Onde termina a fé e começa a superstição?Quem decide o que pode ou não ser considerado sagrado?Por que a fé popular insiste em sobreviver fora das regras oficiais?

O cachorro deixou de ser cultuado oficialmente, mas a história sobrevive — como prova de que a fé humana nem sempre cabe dentro dos dogmas.


E talvez nunca tenha cabido.


Comentários


bottom of page